PF apura lavagem de milhões por meio de bets e empresário é alvo central
Por Eduardo Velozo Fuccia
Um jovem e próspero empresário de Santos (SP) está no centro de uma megaoperação da Polícia Federal. Preso preventivamente na terça-feira (14), Rodrigo de Paula Morgado, de 30 anos, é investigado por liderar suposto esquema de lavagem de milhões de reais oriundos do tráfico internacional de drogas por via marítima. Casas de apostas estão na mira da PF, entre as quais a 7K Bet.
Mais dez investigados tiveram a preventiva decretada. Para o cumprimento dessas ordens de captura e de 19 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Minas Gerais, a PF mobilizou dezenas de agentes e deflagrou a Operação Narco Bet. Ela é desdobramento da Operação Narco Vela, que teve como principal foco o tráfico internacional de drogas para a Europa por veleiros.
Outro investigado na Narco Bet que foi preso é o influenciador digital Bruno Alexssander Souza Silva, o Buzeira. A ligação dele com o empresário santista ficou bastante evidenciada nas investigações até então efetuadas. “Há referência de a empresa Buzeira Digital ter recebido R$ 19.778.343,00, transferidos diretamente por Rodrigo de Paula Morgado”, anotou o juiz federal Roberto Lemos dos Santos Filho.
Titular da 5ª Vara Federal de Santos, o julgador fez essa observação ao deferir os pedidos de mandados de prisão e de busca e de apreensão dos investigados, bem como de bloqueio cautelar de bens e ativos de 75 pessoas físicas e jurídicas suspeitas de participarem do esquema de lavagem de dinheiro. Os requerimentos foram feitos pela PF e contaram com o endosso do Ministério Público Federal (MPF).
O julgador destacou chamar atenção o fato de Morgado transferir “tão expressivo valor” à empresa de Buzeira, “e não o contrário”, em razão do primeiro prestar serviços como contador ao empreendimento do influenciador. Buzeira é mencionado em inquérito da Polícia Civil que apura desvio de recursos do Sport Club Corinthians Paulista, com indícios de lavagem de dinheiro e ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Entre os 11 investigados que tiveram a prisão decretada, um não está no País. Ele viajou para Frankfurt, na Alemanha, no dia 7 de outubro, sem constatação de viagem de volta. Por essa razão, houve a inclusão de seu nome na Difusão Vermelha – a lista de procurados internacionais da Intepol. Também foi solicitado apoio à Polícia Criminal Federal da Alemanha (Bundeskriminalamt – BKA) para a captura desse alvo.
Na decisão de que determinou o sequestro de bens e valores, o julgador estabeleceu o limite de R$ 631,9 milhões. Esse montante foi indicado pela PF por corresponder à estimativa do valor das três toneladas de cocaína apreendidas no veleiro Lobo IV, uma das embarcações usadas para enviar cocaína ao exterior. Morgado atuou como contador de duas empresas envolvidas na aquisição desse barco, segundo a Polícia Federal.
Relatório do Coaf
O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) encaminhou à PF relatório de inteligência financeira (RIF) informando sobre pessoas que se relacionaram, direta ou indiretamente, com Morgado. Nesse documento, conforme o juiz federal, o empresário é identificado como possível operador logístico-financeiro de um amplo esquema de movimentação e lavagem de capitais.
Segundo o RIF, Morgado estruturou e coordenou transações milionárias destinadas ao setor de apostas on-line. Para isso, utilizou uma rede de empresas de fachada, intermediadores de pagamento e laranjas para mascarar a origem ilícita dos recursos. Ele também articulou fluxos financeiros para pagar licenças às casas de apostas 7K e Multibet, além de assessorar na aquisição de imóveis, veículos de luxo e aeronaves.
Informação de Polícia Judiciária (IPJ) produzida pela PF e que lastreou o pedido de prisão preventiva de Morgado o definiu como “verdadeiro banco particular de outros investigados, transacionando valores vultosos em suas contas pessoais e de empresas sob seu controle, realizando ainda conversões em criptomoedas e promovendo repasses a terceiros, tudo a margem do sistema financeiro nacional”.
Com a quebra dos sigilos fiscal e bancário de Morgado, a PF apurou que ele recebeu crédito superior a R$ 87 milhões em operações com criptomoedas. Entre os anos de 2022 e 2023, apresentou variação patrimonial de R$ 295.882,27 para R$ 7.965.157,94. Entre os anos de 2019 e 2024, o empresário realizou movimentação financeira, a crédito e a débito, no montante de R$ 313.427.616,49.
Outro lado
A defesa de Rodrigo de Paula Morgado, por meio de nota, disse que ainda não teve acesso à íntegra dos autos ou dos elementos que embasaram a sua prisão preventiva, mas ressaltou que o empresário “é inocente e que sempre atuou exclusivamente como contador, prestando serviços de natureza técnica e regular a diferentes clientes, dentro dos limites legais da profissão”.
Segundo o advogado Felipe Pires de Campos, essa informação foi prestada ao delegado da PF que formalizou o cumprimento da ordem de captura de Morgado. Por fim, ele manifestou otimismo de que tudo seja esclarecido em prol do cliente. “A defesa confia que, com o avanço das investigações e a completa análise dos autos, a verdade será restabelecida e a inocência de Rodrigo Morgado, plenamente reconhecida”.
A assessoria de imprensa da Ana Gaming, que representa a 7K Bet, disse em nota que a empresa “nega qualquer envolvimento com Buzeira”, sem fazer qualquer menção a Morgado. A Reportagem não conseguiu entrar em contato com a defesa do influenciador digital Bruno Alexssander Souza Silva, o Buzeira, mas o espaço segue aberto para eventual posicionamento.
Fotos: Reprodução/redes sociais
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