Na terra de Drummond, juiz poetiza para exaltar audiência presencial
Por Eduardo Velozo Fuccia
“Querem assassinar a física e a metafísica da dialética; querem reduzir a vida a uma tela; querem colonizar”. A reflexão é do juiz Adriano Antônio Borges, da 2ª Vara do Trabalho de Itabira (MG), cidade natal do poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), e faz parte do despacho em que ele se valeu da poesia para marcar uma audiência presencial.
Muito mais do que designar a audiência para o próximo dia 14 de julho, o julgador exaltou no despacho o formato presencial do ato processual, “porque somos inteiramente de carne e osso; de alma e coração; de dor e alegria; de presença, não de solidão; de raiva e euforia; de amor e ódio; de Deus e do diabo”.
Borges também reproduziu os versos “pensar é estar doente dos olhos” e “socorro, não estou sentindo nada”, respectivamente, do poeta português Fernando Pessoa (1888–1935) e do músico e compositor paulistano Arnaldo Antunes. No entanto, prevaleceram no despacho frases autorais do juiz.
Conforme o julgador, “não podemos permitir, data venia, um estado suicidário, que além de necropolítico, se distancia presencialmente do seu povo, reproduzindo, como nunca, mais uma espécie de desigualdade substantiva, ‘plataformizando’ a consciência de todos, expropriando a liberdade da presença”.
Em sua análise, o juiz anotou que a pretexto de a tecnologia auxiliar o Poder Judiciário na realização de atos por videoconferência, na realidade, ela estaria “aumentando o histórico de violência afetiva desse País, dispersando o individual e o coletivo, enaltecendo uma espécie de escravidão cibernética”.
“Querem ignorar a hipossuficiência tecnológica do trabalhador; querem terceirizar a vontade do trabalhador que sequer sabe o que é juiz 100% digital; (…) querem mimetizar a vida, as esperanças, o desejo de justiça, o abraço da presença, o sorriso da companhia e a doce e inefável brisa do perdão em uma tela de celular”, prosseguiu o magistrado.
Em duas laudas, muito mais destacou o julgador sobre o tema, reservando ao final referência a Drummond: “Aqui na terra do poeta, na 2ª Vara de Itabira (MG), humildemente, não se pratica, em tempos não excepcionais, o juízo 100% digital com a presença virtual das partes, procuradores e testemunhas”.
Fotomontagem: Carlos Drummond de Andrade e Adriano Antônio Borges
Siga-nos no Instagram: https://www.instagram.com/vadenews.com.br/
Curta https://www.facebook.com/portalvadenews e saiba de novos conteúdos