Cocaína é apreendida na Holanda e PF identifica dois acusados em Guarujá
Por Eduardo Velozo Fuccia
A Polícia Federal identificou dois homens envolvidos no envio de 26 quilos de cocaína de navio, via Porto de Santos, à Holanda. O caso foi elucidado após autoridades daquele país descobrirem a droga escondida no compartimento de refrigeração de um contêiner. A PF fez o caminho inverso do entorpecente e chegou aos nomes da dupla, que reside em Guarujá. Ela teve a prisão preventiva decretada, sendo um dos acusados capturados.
Thiago Fabbris de Aguiar e Fabrino Vitório de Moura Souza, respectivamente, motorista e dono de um caminhão usado na logística do tráfico internacional, são os investigados. O juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos, decretou a preventiva de ambos e expediu mandados de busca e apreensão para três casas vinculadas a eles. Dois imóveis ficam em Guarujá e outro está situado em Praia Grande.
O magistrado também determinou o sequestro de bens e valores, até o limite de R$ 4,6 milhões, de Thiago, Fabrino e Rosana Correa Dias. Ela é acusada de integrar o núcleo financeiro da associação criminosa e figura como a responsável por uma transportadora, aparentemente de fachada, destinada a lavar o dinheiro oriundo do narcotráfico internacional. O Vade News não conseguiu contato com as defesas dos acusados.
O bloqueio atinge de forma solidária as pessoas físicas e jurídica, sendo o seu montante correspondente ao proveito econômico das atividades criminosas investigadas. Conforme estimativa da PF, a comercialização dos 26 quilos de cocaína geraria um lucro aproximado de R$ 4,6 milhões. No caso específico de Rosana, ela não teve a preventiva decretada, porque o juiz considerou suficiente a imposição de medidas cautelares.
Segundo a decisão de Roberto Lemos, Rosana fica proibida de se ausentar da comarca onde reside sem prévia autorização judicial e tem o passaporte apreendido, a fim de que não possa sair do País enquanto vigorar a medida. As determinações do juiz (prisões preventivas, mandados de busca e apreensão, bloqueio de bens e valores) decorreram de pedido formulado pela PF, que contou com o aval do Ministério Público Federal (MPF).
Cocaína no terminal
A cocaína foi detectada pelas autoridades holandesas no Porto de Roterdã, no último dia 5 de março. A droga estava oculta no sistema de refrigeração de um contêiner, sendo a Polícia Federal comunicada porque a caixa metálica foi embarcada no navio Vermilion, no Porto de Santos, em 6 de fevereiro. O cargueiro zarpou do Brasil transportando um carregamento de suco de laranja congelado.
A partir dessa informação, a PF analisou o histórico logístico do contêiner e gravações do sistema de monitoramento por câmeras do terminal portuário Santos Brasil Participações, em Guarujá. O cofre de carga permaneceu armazenado nessa empresa antes do embarque no navio. As filmagens demonstraram que a contaminação (introdução da cocaína) ocorreu no pátio da companhia, no dia 5 de fevereiro.
Nessa data, guiando um caminhão Mercedes-Benz azul, Thiago ingressou no terminal transportando um contêiner vazio lícito, às 22h46, sendo identificado por imagens de face e agendamentos logísticos. Porém, ele burlou o fluxo correto, que previa ir direto ao escâner, e se dirigiu à quadra exclusiva de contêineres refrigerados, onde parou rapidamente para o desembarque de dois homens não identificados.
Em seguida, o motorista seguiu com o veículo para outro ponto do pátio para descarregar a caixa metálica vazia. A dupla que desembarcou do caminhão não havia sido vista antes por causa da película escura e espelhada nos vidros da boleia. Além de portarem ferramentas e volumes, os desconhecidos trajavam uniforme com faixas reflexivas para simular que eram de uma empresa prestadora de serviços no terminal.
Os falsos trabalhadores removeram a tampa do motor de refrigeração de um contêiner, esconderam no compartimento sacos pretos contendo tabletes de cocaína e o fecharam. Aos nove minutos do dia 6 de fevereiro, Thiago retornou ao local onde havia deixado os comparsas para buscá-los. O caminhão estava com os faróis apagados e a sua saída do terminal ocorreu à 0h12.
Investigações prosseguem
A PF pesquisou os registros operacionais do terminal Santos Brasil e apurou que os mesmos caminhão e motorista estiveram envolvidos em outras duas ações idênticas e “altamente suspeitas” nos dias 8 e 19 de outubro de 2025. Thiago possui passagens por furto qualificado, associação criminosa e adulteração de sinal identificador de veículo automotor. Ele não foi localizado e é considerado procurado da Justiça Federal.
Dono do caminhão azul, Fabrino foi capturado após a decretação da sua preventiva. De acordo com a PF, embora não estivesse na direção do veículo por ocasião da introdução dos 26 quilos de cocaína no contêiner com suco de laranja, ele ostenta histórico criminal e financeiro que o indica como coordenador logístico do esquema de tráfico internacional sob investigação.
Fabrino já foi indiciado em outros dois inquéritos policiais. Um deles, relacionado à Operação Calvary, da PF, apura a exportação de mais de 2,5 toneladas de cocaína para a Europa. Na outra investigação, ele é acusado de dar apoio logístico no carregamento de seis toneladas de cocaína interceptadas pela Marinha Francesa no Golfo da Guiné, na costa ocidental da África, a bordo do navio Najlan.
Relatório de Inteligência Financeira (RIF) do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) apontou que Fabrino e Rosana, a dona da transportadora, compartilham os mesmos dispositivos eletrônicos e e-mails para gerir contas bancárias e fluxos de valores da empresa. Segundo o documento, eles movimentaram montantes expressivos e incompatíveis com sua capacidade econômica declarada.
O juiz destacou que as provas evidenciam a atuação de grupo estruturado para o tráfico internacional de drogas, a partir do Porto de Santos, com divisão de tarefas entre os investigados e indícios de ocultação e dissimulação do dinheiro auferido com o esquema. Esse cenário revela elevada lesividade concreta da conduta e reforça a necessidade de pronta intervenção estatal para interromper a continuidade das atividades criminosas.
Fotos: Santos Brasil/Divulgação e PF/Divulgação
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