Advogado conta como foi levado ao tribunal do PCC e coagido a desistir de ação
Por Eduardo Velozo Fuccia
Um advogado da Baixada Santista diz que foi submetido ao tribunal do crime, mantido em cárcere privado e coagido a desistir de uma ação cível para não ser eliminado por integrantes do Primeiro do Comando da Capital (PCC). Ele denunciou a ação dos criminosos, motivando o Ministério Público e a Polícia Militar a deflagrarem a Operação Patrocínio Fiel, que resultou na morte de um investigado e na prisão de outros três.
Entrevistado com exclusividade pelo Vade News, o advogado deu um relato estarrecedor: “Ligaram para que eu fosse à Vila Esperança, em Cubatão. O assunto seria sobre um novo trabalho advocatício, mas me deparei com um tribunal do crime no local. Queriam os endereços dos meus clientes da ação cível para se vingarem deles, não informei e me apavoravam”, detalhou Rafaell Câmara Roque, de 36 anos.
Diante da recusa de passar a informação, Rafaell foi pressionado e ameaçado de morte. Ele disse que participaram do debate do tribunal do crime cerca de 30 pessoas presencialmente e mais umas dez por meio de videochamada. Ao final, o grupo o liberou, mas impôs condições para não matá-lo posteriormente: o advogado deveria desistir da ação e fornecer documentos dos bens (imóvel, barcos) objetos da demanda.
A vítima cumpriu apenas a primeira exigência. Enquanto isso, ganhou tempo, reuniu informações e as enviou ao Ministério Público. Diante da gravidade dos fatos, na quarta-feira (12/8), o MP, por meio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), e a Polícia Militar, por meio dos 1º, 3º, 4º e 5º Batalhões de Choque, deflagraram a Patrocínio Fiel.
O objetivo da operação foi cumprir mandados de prisão temporária de 30 dias e de busca e apreensão contra sete investigados. Os delitos investigados são os de organização criminosa, além de sequestro, extorsão, tortura e ameaça praticados contra o advogado. Ao todo foram vistoriados 19 endereços vinculados aos suspeitos nas cidades de Guarujá, São Vicente, Praia Grande, Cubatão e até Florianópolis (SC).
De acordo com o MP, as medidas judiciais alcançaram residências dos investigados, comércios vinculados ao grupo criminoso e o imóvel apontado como o local onde a vítima teria sido mantida em cativeiro. As investigações prosseguem sob sigilo para garantir a efetividade das diligências em andamento e a completa responsabilização dos envolvidos para desarticular importantes lideranças do PCC na Baixada Santista.
Cronologia dos fatos
Rafaell protocolou no dia 31 de março de 2026 uma ação de dissolução parcial de sociedade com apuração de haveres, com pedido de indenização de R$ 50 mil por danos morais, que foi distribuída à 2ª Vara Cível de Guarujá. Ele representava uma das sócias da empresa, que teria sido indevidamente alijada do empreendimento por outro sócio. Para fins fiscais, foi estipulado à causa o valor de R$ 80 mil.
No entanto, o valor real da causa é muito maior, porque envolve um patrimônio que engloba um imóvel em Guarujá construído em área de 440 m², box para a venda de pescados, três barcos pesqueiros, duas câmaras frigoríficas, três máquinas de limpar camarão e uma de fabricar gelo. No dia 24 de junho, ainda na fase embrionária do processo, em nome da cliente, o advogado comunicou ao juízo a sua desistência da ação.
A comunicação de Rafaell aconteceu 13 dias após ele ser ameaçado pelo PCC. Ele foi atraído ao tribunal do crime em 11 de junho, ficando sob o domínio da facção entre 19 horas e 1 hora do dia seguinte. Segundo o advogado, ele se dirigiu à Vila Esperança após receber uma ligação de “Bel”, apelido de William Nascimento Boaventura. Também conhecido por Bolacha, ele foi um dos capturados na operação de 12 de agosto.
Apesar da desistência da ação, ela não surtiu efeito, porque os ex-clientes de Rafaell constituíram novos advogados, que, inclusive, já representaram réplica. Porém, a vítima do tribunal do crime revelou que os antigos patrocinados, ao tomarem ciência do sequestro e da coação que ela sofrera, saíram da região por medo de também serem alvos de represália por parte dos requeridos. O juízo ainda não definiu data para audiência.

Virou as costas
O debate do tribunal do crime, conforme Rafaell, contou com a participação de Wagner Rodrigues dos Santos, o Branquinho. Companheiro da ré na ação cível, ele participou da sessão do PCC por videochamada. Em 2022, a 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores de São Paulo absolveu Wagner das acusações de integrar organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Segundo denúncia do MP naquela época, Branquinho teria movimentado, quando estava preso, R$ 7,8 milhões para o setor financeiro do PCC com a venda de drogas na Baixada Santista. Porém, a sentença assinalou não haver prova suficiente para condená-lo. Alvo agora da Patrocínio Fiel, ele estaria em Santa Catarina, mas não foi localizado na operação deflagrada na capital desse estado na última quarta-feira-feira.
Sob o risco iminente de ser morto, a depender do que fosse deliberado na reunião do PCC, Rafaell pôde utilizar o seu celular para falar com José Armerindo Santos de Carvalho, o Boqueta. Seu cliente em ao menos dois processos, Boqueta eventualmente poderia intervir no debate em seu favor. Após a ligação, esse homem compareceu à reunião na Vila Esperança. Porém, não se posicionou para defender quem o defendia.
Por esse motivo, Boqueta foi um dos que tiveram a prisão temporária decretada no âmbito da Patrocínio Fiel, mas não chegou a ser capturado. Durante a operação, policiais militares o localizaram na Rua Dona Olga Marques, em São Vicente, e ele resistiu. Enfrentou e atirou na direção dos PMs, que escaparam ilesos, revidaram os disparos e o atingiram, causando a sua morte.
Devido à postura de Boqueta em seu desfavor, em 17 de junho de 2026, 11 dias após o tribunal do crime, Rafaell juntou petição renunciando, “por vontade do réu”, ao mandato que ele lhe outorgara em ação de porte ilegal de arma, que tramita pela 2ª Vara Criminal de São Vicente. Acusado de portar arma de fogo em um baile funk ocorrido em agosto de 2024, Boqueta respondia ao processo em liberdade graças a um habeas corpus.
Em outra ação, que tramitou pela Vara da Fazenda Pública de São Vicente, Rafaell representou Boqueta para processar o Estado de São Paulo por dano moral. Motivo: o estabelecimento prisional demorou três dias para cumprir o alvará de soltura do autor no caso do porte ilegal de arma, prolongando o tempo de cárcere ilegalmente. A demanda foi julgada procedente para condenar o Estado a pagar indenização de R$ 2 mil.

‘Um dia de cada vez’
Além de William Nascimento Boaventura, o Bolacha, também foram presos na operação os investigados Pedro Henrique Soares de Almeida, o Playboy, e Gilvan Barbosa, o Geléia. As capturas ocorreram nas moradias dos acusados, todas em Praia Grande. Alvo das buscas, Branquinho não foi encontrado em Santa Catarina. Conformes informações que são checadas pelo Gaeco, ele estaria na Bolívia.
Questionado pelo Vade News se não tem medo de retaliações pela denúncia feita, Rafaell declarou: “Quero viver e tenho receio. Fui vítima de uma organização criminosa apenas porque exerci o meu trabalho, ajuizando uma ação. Me sinto desamparado por estar em um narcoestado. Mas vou vivendo um dia de cada vez, confiando que Jesus me protege. A minha fé me fortalece”.
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