Presa por ‘Boa Noite Cinderela’ contra idoso tinha remédio para dopar em casa
Por Eduardo Velozo Fuccia
Acusada de roubar um idoso de 77 anos em Praia Grande, após dopá-lo com alguma substância que colocou em sua bebida, prática conhecida como Boa Noite, Cinderela, uma mulher foi presa na segunda-feira (21), em Barueri, na Região Metropolitana de São Paulo. Ágatha de Oliveira Ricardo, de 35 anos, tinha em sua casa 13 comprimidos de clonazepam – medicamento benzodiazepínico de tarja preta que age no sistema nervoso central e causa sedação intensa, fraqueza, lentidão motora e dificuldade de concentração.
Indicado para crises epilépticas, transtornos de ansiedade, distúrbio do pânico e transtorno afetivo bipolar, o psicotrópico era a prova material do crime que a equipe do delegado Rodrigo Martins Iotti, do 3º DP de Praia Grande, buscava ao revistar a moradia da acusada. A vistoria ao imóvel contou com respaldo de mandado de busca e apreensão expedido pelo juiz Fernando César do Nascimento, da 1ª Vara Criminal de Praia Grande. O magistrado também decretou a prisão preventiva de Ágatha.
Na decisão que deferiu os pedidos de prisão e de busca domiciliar feitos pelo delegado, o juiz destacou a “intensa gravidade no ato imputado à ré, que ludibriou a vítima e a rendeu por completo por meio de oferta de alguma substância ignorada, partindo a dilapidar intensamente seu patrimônio de diversas formas, enquanto encontrava-se inconsciente”. Para o julgador, a conduta da acusada também revelou premeditação, organização de tarefas e robustez técnica para pulverizar os valores subtraídos para diversos destinos.
Na fundamentação da expedição dos mandados, Nascimento também assinalou a necessidade de “salvaguardar a incolumidade pública ameaçada pela prática de reiterados crimes patrimoniais, inclusive, com a completa redução da possibilidade da vítima se defender”. A Polícia Civil ainda investiga informações de que Ágatha estaria envolvida em outros golpes na modalidade Boa Noite, Cinderela, com a provável atuação de comparsas ainda não identificados.

Enredo delitivo
O idoso da Baixada Santista e Ágatha se conheceram há cerca de três meses pelo aplicativo de relacionamento Tinder. As conversas virtuais migraram para o WhatsApp, no qual foi amadurecida a ideia de um contato presencial. Ao interessado com idade para ser no mínimo seu pai, a mulher se identificou como “Bruna” e se dispôs a ir ao seu encontro. O lugar marcado foi público, na Avenida Presidente Kennedy, no Jardim Real, mas logo o anfitrião convidou a mulher para acompanhá-lo até sua casa.
A mulher não se fez de rogada e aceitou de pronto. Era a oportunidade que esperava, segundo a polícia, para poder dopar a vítima e roubá-la. O idoso contou aos investigadores que consumiu um chocolate e ficou com sede. Mais do que depressa, ‘Bruna’ se prontificou a buscar um copo de água na cozinha. O líquido matou a sede e a consciência do homem. Bastaram alguns minutos para ele desmaiar. Ele só recobrou os sentidos na tarde do dia seguinte.
A mulher do Tinder já não estava na casa e o idoso constatou o sumiço do seu celular e de alguns objetos da residência. Ainda desnorteado devido aos efeitos da substância que o dopou, ele procurou atendimento médico. Posteriormente, verificou que foram realizadas transações por meio do aplicativo bancário instalado em seu telefone, como um empréstimo de R$ 11 mil e transferências via Pix para várias contas. O prejuízo total foi contabilizado em R$ 14.543,34.
Ágatha admitiu no 3º DP de Praia Grande que colocou um comprimido de clonazepam no café do idoso. Sem convencer o delegado, a acusada alegou que fez isso porque o homem ficou exaltado após ela dizer que iria embora. Quanto às transações bancárias, disse que a própria vítima as realizou, a pedido dela. Antes de o delegado solicitar os mandados de prisão e de busca e apreensão, a mulher já havia sido reconhecida por meio de fotografia pelo pretendente do aplicativo de relacionamento.
Além dos 13 comprimidos, os investigadores apreenderam três celulares na moradia de Ágatha. Será requerida a quebra do sigilo dos dados telemáticos da investigada para que os aparelhos sejam periciados. A expectativa policial é de que neles hajam arquivos que possibilitem identificar os demais envolvidos no Boa Noite, Cinderela, além de elucidar outros eventuais crimes do gênero. A acusada nega quaisquer delitos, afirmando que vende produtos eróticos e complementa a sua renda com serviços de acompanhante.
Foto ilustrativa: Pexels
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