Consórcio PCC-Ndrangheta põe Santos no radar da PF e 10 têm prisão decretada
Por Eduardo Velozo Fuccia
A ligação do Primeiro Comando da Capital (PCC) com a ‘Ndrangheta (máfia italiana presente em mais de 40 países) aflorou em investigação da Polícia Federal, que resultou na prisão preventiva de dez homens. Eles são acusados de se associarem para traficar cocaína do Brasil à Europa pelo mar. Quatro deles, ao menos, são da Baixada Santista. Um sérvio, um espanhol e um colombiano também integram a torre de babel criminosa.
A operação foi batizada de Narco Sky devido à plataforma de comunicação criptografada Sky ECC. O grupo usava esse sofisticado sistema de mensagens como forma de dificultar a interceptação e o rastreamento delas. Porém, o compartilhamento de provas por autoridades francesas, mediante cooperação jurídica internacional, e perícia especializada da PF permitiram decifrar sete eventos de narcotráfico internacional.
Um desses eventos teve o Porto de Santos como cenário, em 30 de março de 2020. O plano inicial era o de embarcar 500 quilos de cocaína no navio Panorea, no Porto de Paranaguá (PR), no dia 28 de março. Porém, devido à detecção de elevado risco de descoberta do esquema, os criminosos o abortaram, retomando-o dois dias depois, quando a embarcação já estava atracada no cais santista.
Na segunda tentativa, que se consumou, apenas 80 quilos de cocaína foram acondicionados no cargueiro. O guarujaense Marco Aurélio de Souza, o Lelinho, liderou em solo brasileiro toda a logística da operação. De acordo com a PF, ela englobou a cooptação de tripulantes estrangeiros a bordo do navio e a coordenação de barcos incumbidos de se aproximar do casco do Panorea para realizar o transbordo da droga.
Segundo relatório da PF que serviu de base ao pedido de prisão preventiva, a capacidade de comando de Lelinho ficou patente nos demais eventos. Eles ocorreram também em 2020, mas em outros locais, inclusive fora do País. Esses lugares são: Porto de Rio Grande (RS), Porto de Las Palmas (Espanha), Fernandópolis (SP), Praia do Góes (Guarujá), Porto de Ancona (Itália) e Praia de Borssele (Holanda).
Na Praia do Góes, em 8 de julho de 2020, houve a descoberta de um imóvel que funcionava como entreposto da organização criminosa, sob o controle de Lelinho. Nele houve a apreensão de 321 quilos de pasta base de cocaína. Líderes estrangeiros do grupo e coproprietários da droga, o sérvio Antun Mrdeza e o espanhol Alejandro Salgado Vega, o Tigre, cobraram do guarujaense explicações sobre a perda financeira.

Foragidos internacionais
O sérvio usa os nomes falsos de Nikola Boros e Jhon Gotti. Retratado pela PF como um dos pilares do consórcio criminoso, com poderes decisório e financeiro, ele é integrante da ‘Ndrangheta e mundialmente conhecido por várias operações do narcotráfico na América do Sul. A sua posição transcende a de um mero investidor, pois remotamente comandava remessas de cocaína ao continente europeu e cobrava resultados.
Em 2023, o sérvio ingressou na Colômbia usando documento falso de Nikola Boros. No entanto, as autoridades locais o identificaram como pessoa com ordem de captura internacional e o prenderam. Quando seria expulso do país para responder pelos crimes dos quais é acusado, o criminoso conseguiu fugir do aeroporto de Rionegro durante tiroteio e apoio externo. O seu paradeiro atual é ignorado.
Outro líder e também foragido, o espanhol Alejandro Salgado Vega, o Tigre, atuava em paridade hierárquica com o sérvio, porque tinha poder de decisão e figurava como um dos principais financiadores das operações transcontinentais de narcotraficância. O colombiano Pedro Alonso Camacho Fernandez, o Vince, fazia parte do eixo logístico europeu e atuava na interlocução entre os núcleos financeiro e operacional.
Lelinho tinha os codinomes Pirata Santos e Pirata 2 na plataforma Sky ECC. As investigações apontam que ele não era um simples gerente, mas verdadeiro cérebro das operações em território brasileiro. A sua função era multifacetada, abrangendo desde o planejamento estratégico de grandes remessas de cocaína até a execução de missões operacionais de alto risco.
Conforme a PF, Lelinho chefiava uma equipe formada por Fábio Rodrigues Ulhoa Cintra, o Sapão; Walter Pires Junior, o Waltinho, e Klaus de Castro Rios Motta e Silva, irmão de Waltinho. Acusados de tarefas de informação, preparação e executivas, Ivan de Freitas Santos, Rafael Gonçalves Sayão, o Cabelinho, e Antônio Greg Ribeiro Pinheiro, o Fisherman, completam a relação dos dez homens que tiveram a prisão decretada.
Esquema multimodal
A Narco Sky é desdobramento da Operação Narco Vela, que investiga organização criminosa voltada ao tráfico internacional de drogas com o uso de veleiros. De acordo com o juiz Roberto Lemos dos Santos Filho, da 5ª Vara Federal de Santos, os elementos trazidos pela PF na Narco Sky, lastreados em provas técnicas, dão contornos da efetiva existência de grupo de elevada envergadura agindo dentro e fora do País.
“Foi identificado um núcleo de direção e financiamento localizado fora do País que providencia recursos e toma decisões estratégicas; um comando nacional responsável pela coordenação logística em território brasileiro; e células operacionais encarregadas do preparo, armazenamento e movimentação física da droga”, observou o julgador, ao deferir o pedido de prisão preventiva formulado pela Polícia Federal.
A partir dos dados extraídos dos servidores do aplicativo de mensagens criptografadas, a PF descobriu uma combinação de modalidades multimodais pelos narcotraficantes: transporte aéreo da cocaína até pontos de concentração no interior paulista, armazenamento em entrepostos, como o de Guarujá, e a posterior remessa por via marítima, mediante a inserção da droga em navios atracados em portos ou em alto-mar.
Também se apurou a diversificação de técnicas de introdução da droga. Conforme o grau de fiscalização enfrentado em cada lugar e ocasião, a organização ocultava a cocaína em compartimentos de contêineres ou no meio das cargas, acondicionava os tabletes do entorpecente no casco de navios com o auxílio de mergulhadores ou os içava para o interior dos cargueiros nos portos ou no mar, mediante o uso de embarcações de apoio.
“Em suma, ficou evidenciada a existência de uma estrutura hierarquizada, com especialização técnica e alta capacidade de articular operações transnacionais, realizadas inclusive com a organização mafiosa italiana ‘Ndrangheta, com integração logística, comunicação segura e recursos patrimoniais”, avaliou o juiz. Segundo ele, a garantia da ordem pública e a conveniência da instrução criminal justificam a custódia cautelar.
Quanto à ameaça à ordem pública, Roberto Lemos apontou a “gravidade concreta” dos delitos, que resultaram na remessa de mais de 2,3 toneladas de cocaína à Europa em apenas um ano. Sobre a conveniência da instrução criminal, citou a amplitude dos relacionamentos dos investigados, “alcançando funcionários portuários e tripulantes de embarcações, havendo, ao meu sentir, risco concreto de destruição de provas”.
Fotomontagem: Porto de Santos/Carlos Nogueira; Marco Aurélio de Souza (à esq.) e Antun Mrdeza (à dir.)/Reproduções
Siga-nos no Instagram: https://www.instagram.com/vadenews.com.br/
Curta https://www.facebook.com/portalvadenews e saiba de novos conteúdos