Médico é condenado por execução de paciente em hospital por ordem do PCC
Por Eduardo Velozo Fuccia
Três homens acusados de integrarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e de envolvimento na execução a tiros de um homem no Hospital Santo Amaro, em Guarujá, foram submetidos a júri. Após dois dias de sessão, que terminou na noite de quinta-feira (10/9), eles foram condenados a penas que variam de 20 a 23 anos de reclusão. Um dos réus é o médico ortopedista Alexandre Pedroso Ribeiro, de 58 anos.
Apontados como os autores dos disparos, Sandro Vieira Conceição, o Patinho, de 34 anos, e Vitor Hugo Assunção, o Pikachu, de 30, são os demais acusados. Segundo a denúncia do Ministério Público (MP), com os rostos encobertos por capacetes, eles ingressaram em uma sala da emergência do hospital e atiraram no paciente Gilianderson dos Santos, de 37 anos. A vítima estava em uma cadeira de rodas e morreu no local.
O homicídio aconteceu na manhã de 24 de abril de 2022. A vítima havia recebido alta momentos antes e aguardava na emergência a chegada de um familiar para buscá-la. Conforme a denúncia, o médico avisou os executores sobre o horário da liberação do paciente e onde ele se encontrava. Pikachu e Patinho chegaram ao Santo Amaro nas garupas de duas motos, abriram fogo e fugiram. Os pilotos não foram identificados.

O suposto motivo do homicídio foi uma ação do tribunal do crime. A Polícia Civil apurou que a vítima estaria na mira do PCC, que suspeitava do envolvimento dela em um estupro. O delegado Thiago Nemi Bonametti, que comandou as investigações, explicou em juízo que os executores seriam “disciplinas” da facção, ou seja, membros incumbidos de aplicar castigos a desafetos e até a pena capital por ordem da organização criminosa.
Dois dias antes da execução, na noite de 22 de abril de 2022, Gilianderson havia escapado da morte. Policiais militares se depararam com ele ferido a tiros na ciclovia da Rodovia Cônego Domênico Rangoni, no Distrito de Vicente de Carvalho. Ele estava consciente e disse que dois ladrões o balearam para roubar a sua bicicleta e mochila. Um disparo entrou pelas costas e saiu no abdômen. Outro atingiu as nádegas e transfixou uma coxa.
Os assaltantes nunca foram identificados, como também sequer se confirmou a ocorrência da suposta tentativa de latrocínio. Porém, após a execução dentro do hospital, surgiu para a Polícia Civil a informação de que o pretenso tribunal do crime foi motivado pelo caso de estupro, que também não ficou demonstrado nos autos, pois não se esclareceu quem seria a vítima do hipotético delito sexual.
Diante desse quadro de dúvidas, as defesas dos réus pediram a sua absolvição. Na decisão que determinou a submissão de Alexandre, Patinho e Pikachu a júri, o juiz Edmilson Rosa dos Santos ponderou que, apesar das negativas de autorias sustentadas pelos acusados, não se poderia desprezar naquela fase processual a hipótese de que existem elementos informativos em sentido contrário a justificarem o julgamento popular.
“Há um mosaico de indícios que parece apontar, ou pelo menos sugere de forma relevante, no sentido de haver a inquietante possibilidade de que os três indiciados, com o concurso de pelo menos mais outros dois indivíduos não-identificados, poderiam ter entabulado entendimentos para eventualmente emboscar-se a vítima Gilianderson no momento em que esta obteve ‘alta antecipada’ do Hospital Santo Amaro”, frisou o juiz.

Dosimetria
Sob a presidência da juíza Isadora Monteiro Moreira, a sessão contou com a participação dos promotores José Mário Buck Marzagão Barbuto e Marcos Vinícius Ramos Oliveira. Os representantes do MP pleitearam a condenação dos réus por homicídio, qualificado pelo motivo torpe e pelo emprego de recurso que impossibilitou a defesa da vítima, bem como pelo delito conexo de integrar organização criminosa.
Os jurados acolheram integralmente a tese acusatória e condenaram os réus por ambos os crimes. A magistrada anunciou o veredicto às 22 horas. Na dosimetria, ela fixou a pena total do médico em 20 anos e cinco meses. Sandro foi sentenciado a 22 anos, quatro meses e 24 dias. A sanção de Vitor Hugo foi de 23 anos e 14 dias. Os réus não poderão recorrer soltos. As reprimendas devem ser cumpridas em regime inicial fechado.
A advogada Tatiana La Scala Lambauer defende o médico e apelará ao Tribunal de Justiça de São Paulo. Segundo ela, a decisão dos jurados foi manifestamente contrária às provas dos autos, sendo Alexandre condenado com base em “conjecturas”. O médico cumpre pena de sete anos e seis meses por tráfico. Em sua casa, em 2021, policiais civis acharam 62,3 quilos de cocaína. As defesas de Patinho e Pikachu também recorrerão.
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